Fria noite de inverno, quente a solidão vastamente invade a alma dos ‘a sós’. Mesmo que fossem dois, eram duas solidões que os regiam em uma orquestra de silêncio e um clima constrangedor. O que foi que eu fiz, então bruscamente alguém quebrou o silêncio em um rompante de desespero. Você deve saber, a resposta seca e direta que se volta como uma faca rasgando o sentimento de culpa pelo não sei o que acontece. Barulho do relógio tic tac, estavam há horas e não disseram mais que meias palavras, em tons de acusação e tentativas de redenção ao erro nem bem explicito, mas muito bem entendido quando o silêncio se fazia na sala. Então alguém ligou a TV, e outro alguém levantou e desligou, o silencio é a cura, dizendo isso sentou-se novamente de fronte à janela com uma cidade tão suja por trás, dava para sentir o ar da sujeira de indiferença que rodeava os arranha-céus que estavam a perder de vista naquela paisagem nauseante. Mas alguém levantou e foi em direção à porta, pegando a chave em um só segundo, colocou a mão na maçaneta ameaçando ir embora se você não disser alguma coisa. Se levantou de fronte à janela e virou para a figura na porta, com os olhos de uma mágoa tão profunda que escorria pela face e jorrava pelas mãos trêmulas de quem não sabe o que dizer. E ali ficaram, por mais alguns minutos, enquanto a cidade se refazia em seus tons acinzentados e seus habitantes tão solitários e calados de sentimentos quanto aqueles dois. Fechou de novo a porta, onde os vizinhos passavam e observavam a incomum movimentação dos moradores daquela casa que nunca estivera tão silenciosa. Nem percebendo que o dia já ia clareando e as mãos em cima da mesa já ansiavam qualquer resposta além do não responder e do não fazer barulho, além dos passos surdos e angustiantes pela sala praticamente vazia. Quando o tic tac do relógio anunciava 8 horas da manhã, já clareou o dia e ainda estamos aqui sem nada e sem respostas e quase sem rosto além do cansaço, alguém sussurrou em um suspiro quase fundido ao silêncio que pairava abaixo do som dos carros e de crianças correndo para ir para a escola em uma manhã morna que ia desfazendo a noite que fora tão fria e incalculavelmente longa para um deles. Quem estava tão atido ao silencio começou de repente a falar e lembrar as horas que passaram à luz da lua, nas quais o silêncio sempre fora o que permanecia banhando seus sentimentos de respostas sem prévias perguntas e nem ações que merecessem julgamentos e vereditos sobre atitudes. Porque tudo isso agora? A aflição tomava conta de quem temia qualquer atitude que iria julgar tão impensada quanto a sua, que era o que resultou nesta noite de espera e desespera. De repente começou a criar argumentos em defesa própria, não podia fazer nada não faça isso me diga alguma coisa me diga o que fazer. Se levantou alguém que tinha uma decisão por tomar, foi até o quarto pegou as malas do outro, as entregou, arrume seu nada e vá embora carregando esse vazio que nunca me foi suficiente, e só lhe tenho uma coisa a pedir que faça só volte quando conseguir ouvir tudo que esse silêncio tem para te dizer. E foi, e não voltou. Algumas vezes tinha vontade de voltar, mas nunca silenciou e nunca compreendeu.
thinking for free
sexta-feira, 11 de maio de 2012
Silêncio
-Para T.Borges (Tutu)
sábado, 8 de outubro de 2011
Meios Sábados
Talvez nem toda espera tivesse um fio de esperança, pensei alto batendo o cigarro na ponta do cinzeiro e jogando as cinzas no chão sem querer. Ouvi alguém dizer, ou li em algum lugar, que parar para pensar na vida é tarefa para uma tarde de chuva, ou não era isso, ou era só a tarde de chuva. Bom, aquela não era uma tarde de chuva, mesmo assim eu esperava por alguma coisa que tardava, não tinha esperança que algo acontecesse, era só uma espera infinita por um nada que viesse e me tirasse desse tédio, ou não era o tédio. Ao certo era um sábado, desses em que há meios compromissos, meias intenções, meios convites, meias dúvidas, meias esperas. Sábados são pela metade, os domingos são totalmente vazios para quem não faz churrascos de famílias e não acorda de meia ressaca pela meia bebedeira de um meio sábado sem esperança nenhuma. A fumaça do cigarro bate no teto e faz formatos de espera, mas espera pelo que, talvez espere que eu abra a janela para que possa sair e se dissipar no ar, talvez se dissipe por ali mesmo e não esteja esperando por meias atitudes, como eu. Acho que a espera não tem formato, ela só está ali, talvez não seja uma esperança declaradamente, talvez seja esse aperto no peito que sentimos às vezes, que sentimos aos sábados, que não é o vazio de um domingo à noite , que é mais uma aflição por uma segunda feira cheia de tarefas, quando não há tempo para esperas, temos que ser completos para que esperemos por uma sexta feira feliz, depois das 18h aos que trabalham e depois das 22h aos que estudam, como eu. Na verdade, para mim as sextas feiras são um tanto angustiantes, já que eu espero por elas a semana toda e quando elas chegam,acho que é tanta euforia que não consigo pensar no que fazer e acabo não fazendo nada, nada com feijão, como diria meu avô. Esperar por uma sexta feira, qual a diferença de esperar por uma sexta feira e esperar por alguma coisa que não se sabe o que é, talvez a diferença seja essa angústia de saber que a sexta feira chegou e que vai chegar de um jeito ou de outro, e a de não saber é tentar encaixar qualquer coisa que nos traga um pouquinho a mais do que metades nessa “coisa” que não tem nome. Divagação, o cigarro se apagou sozinho enquanto eu esperava que meus pensamentos sobre meias angústias terminassem. De repente olhar pra janela e ver a movimentação de um sábado, que é só metade, que metade das pessoas trabalham, outra metade aproveita para fazer meias tarefas de casa e receber meias visitas de meia hora e tomar meia térmica de chimarrão ou só meia xícara de café. Os sábados são pela metade, as sextas feiras são angustiantes, os domingos vazios e eu, talvez, só esteja em um meio sábado qualquer esperando por qualquer meia companhia que venha por meia hora, tomar meia xícara de café e que abra um lado da janela para que a fumaça do cigarro, que talvez tenha menos esperança do que eu, possa sair e se dissipar por inteiro pelas meias ruas deste meio sábado.
quinta-feira, 16 de junho de 2011
"Carry on, carry on..."
Tudo que foi não volta, não iria querer voltar atrás para refazer o caminho e acertar, eu não tenho culpa de nada, falando em tons de absurdo na frente do espelho. Acordou com a indignação estampada no rosto, nem sabia por quê. Estava pensando em todos os “poderia ter sido” do passado. Em como realmente teria sido melhor ter escolhido todos os lados direitos dos caminhos invés dos esquerdos, ou ter alternado, ou ter tropeçado em mais pedras durante um tempo pra enfim chegar a alguma cachoeira cintilante ao final e colocar a cabeça na água fresca e ver que realmente tudo aquilo valeu a pena. Ou, ou, ou... não dá para voltar atrás, fiz o que tinha que ser feito, repetindo com a cabeça próxima do espelho e analisando as olheiras acumuladas durante anos a fio com poucas horas de sono e muito mal dormidas, as pontas dos dedos amareladas da nicotina absorvida nas noites de insônia. Tomar banho e sair novamente pelas ruas vazias às 6h da manhã, passando por uma pessoa ou outra que olha para a figura pálida com estranheza ou pena andando de camiseta nos frios que perpassam as olheiras e os fones de ouvido tocando Bohemian Rhapsody a todo o volume que for possível para abafar os pensamentos. “Carry on, carry on...” a música entra pelos ouvidos e absorve os pensamentos até a esquina onde há um trevo com três saídas, onde todos os caminhos podem levá-lo ao mesmo destino. Música acabando, os pensamentos vem à tona na cabeça que gira enquanto o movimento de gente e carros começa para a rotina agitada da cidade que estava adormecida. “Nothing really matters to me...” para onde eu vou? Não vou me repetir, não vou me repetir, não vou me repetir... e o movimento o vinha cercando na esquina, a cabeça girando em sentido contrário aos pensamentos, buzina, buzina, vozes, desmaiou. Se viu de novo em frente às 3 saídas, mas uma esquina abaixo, lá na frente, um homem alto, magro, que olhava também para os caminhos sem saber para onde ir. Caminhava sem sair do lugar, corria e o homem nunca se aproximava, chamava em gritos por ele sem sucesso, o homem parecia observar bem as três opções, quando ele se virou pôde ver a si mesmo, uns 20 anos mais jovem talvez. Sentou-se. Começou a pensar no que poderia estar acontecendo, ligou o mp3, o homem à frente parecia reagir tendo escolhido um caminho para seguir, quando sumiu no horizonte de um da reta escolhida, olhou para trás o mesmo homem vinha subindo a mesma rua e fez a mesma parada, os mesmos gestos de dúvida, mas escolheu um caminho diferente de antes, e quando olhou para trás vinha ele jovem novamente fazendo a mesma parada, os mesmos gestos de dúvida e escolheu o último caminho a ser seguido. Quando olhou para trás vinha ele novamente ouvindo Bohemian Rhapsody no último volume, olhar de indignação, dedos amarelados de nicotina, olheiras fundas e cuidando bem o chão por aonde vinha pisando, quando deu de cara consigo mesmo acordou no mesmo lugar onde tinha ficado inconsciente com toda a multidão ao redor se questionando o que havia acontecido com o homem magrelo que desmaiou no meio da rua. Levantou, ligou o mp3 novamente, mas dessa vez em volume que pudesse escutar a si próprio, parou em frente à avenida de múltiplas saídas e repetia NÃO HÁ ERROS, NÃO HÁ ERROS, o caminho está certo, o erro está no final da linha, e deu a volta sem olhar para trás.
sábado, 12 de março de 2011
Casaco Listrado
E se naquele dia, os olhos tivessem se cruzado poderia ter sido diferente. Mas no meio da multidão não se enxergam olhos, somente sorrisos plásticos e as máscaras que acompanham músicas com letras deploráveis e contatos físicos superficiais. Uma olhada de canto, um copo, um amigo puxando pela mão, relance, realce, passou por todas as pessoas, fez a volta e parou no mesmo lugar, não estava mais ali. Não reparei na roupa, não vi cores, só vi os olhos, brilhavam acompanhando meus movimentos, em voz baixa. E se passou o resto da noite no mesmo lugar tentando achar de novo a troca de olhares que não se repete nem mais do que “a few times” nessa vida. Mas sobre o que falar, amores de carnaval duram menos que uma onda em maré baixa, desistindo de procurar. Trocou de lugar, fingiu que nem ligava, quando a música permitia um intervalo o pensamento corria de volta, tentou lembrar-se de um pedaço de roupa, ou da cor do cabelo, em relance veio a cor do casaco que se puxava em listras e tecido desconhecido, mas achou que não estaria do mesmo jeito, assim como não passou pelo mesmo lugar onde havia sido visto. Correu os olhos em todos os casacos listrados que por ali passavam, vestidos, na mão, amarrados na cintura ou carregados e arrastando no chão. Nada. Em um tempo fora desse ar de folia, sentou e recapitulou a cena, que ridículo procurar o canto de um olho, mesmo que tenha sido o olhar mais terno e reconhecível que eu já vi, depois de tanta escuridão e da promessa cumprida, depois dos anos e da chuva seca, depois de nunca mais ter olhado nos olhos de ninguém. Então se deixar passar, se não correr, virão outros, ou será que este é o teste? Pode ser uma nova chance para cobrir alguma outra que deixei para trás sem ao menos ter me dado por conta, será que eu já fui a pessoa do casaco listrado? E se fui, pq então a outra pessoa não me procurou, será que é esse o fundamento disso tudo, me colocar no lugar do outro. Então, se for isso, que infelicidade, não poderei mais procurar, vou ficar sentindo o mesmo, me apoiando na ternura de um olhar que durou alguns segundos. O encanto e desencanto do tamanho da festa, pequeno, mas intenso para alguns, extenso e desastroso para outros. E se fosse então essa a última oportunidade, se chegou na avenida pensando, nem menos pensado, parou no meio do caminho e não se mexeu, sentia o olhar acariciando os seus olhos, estremeceu, parou mais, vozes chamando, vamos-vamos-o nosso lugar é lá na frente, se virou, e de novo, não conseguiu achar. Meros devaneios ou intuição carinhosa, continuava procurando, mesmo indo com os amigos que não entendiam nada do que estava acontecendo, a sensação foi passando, como a chuva que vai se transformando em garoa fina até que nem tem mais força de molhar o chão. Vai dormir o dia todo amanhã, é o último dia, eu preciso achar, não vou perder essa chance, mesmo que não seja pra acontecer. No despertar, enfeitou-se tão alegremente como se estivesse na obstinação de encontrar aquele olhar e então desvendar esse mistério tão doce e tão angustiante. Já passando pela avenida, hoje vou achar nem que tenha que rondar todos os olhos dessa rua, mesmo que seja minha missão impossível, mesmo que não seja pra ser achado. E o fez, rodeou todos os possíveis mirantes, até passar para os impossíveis, então os improváveis e até os impensáveis. Desisto, não era pra ser, então nunca vai ser, lágrima que corre o rosto e passa pela decepção contornando o desejo não saciado de encontrar um simples olhar que poderia ser o mais brilhante que já vi na minha vida. Mas na decepção, se sente pelas costas paralisar e a mão que desliza o ombro e eleva o corpo contra o seu para sussurrar no seu ouvido: enfim te achei, eterna ternura no olhar. E tirou a mão do ombro, quando se virou viu o casaco listrado saindo de costas pelo meio da multidão e sumindo bem como da primeira vez. Levantou os olhos e sussurrou tão baixinho que ninguém podia ouvir, o ano que vem eu vou estar no mesmo lugar, vou te esperar.
quinta-feira, 9 de setembro de 2010
Caminho
Ao ver a imagem refletida nas sombras da água, pensou: onde estou? Foi caminhando em direção à única luz que via ao longe. Quando chegou, avistou um velho poste no meio do nada. Sentou-se, olhou para os lados buscando uma saída. Enxergou entre alguns arbustos uma clareira, parecia uma trilha. Resolveu seguir por ali. Pelo caminho havia algumas árvores tão belas, outras tão turvas, a maioria escura e cheia de deformações nos troncos e folhas. Andava devagar em meio a tudo, não via outro caminho senão aquela trilha estreita que ia se seguindo. Não tinham flores, nem animais, nem frutas nas árvores mais belas. Talvez se ficasse passasse algum beija-flor que pudesse levar a algum jardim, mas não tinha tempo. Então avistou uma luz nem muito próxima. A estrada estava levando até ela. Não apurou o passo, seguia caminhando suavemente sem deixar marcas no chão e nem olhar para trás. Ao chegar, deu-se no mesmo poste de onde tinha saído. Sentou-se sem nenhuma expressão no rosto e olhou para o céu, tão escuro, sem nada, sem rumo. O seu único leme eram as pernas. Não pensava em nada, não tinha nada para carregar, nada para se lembrar. Olhou para aquela mesma trilha e foi andando, de cabeça erguida, suavemente, como se ela pudesse mudar e o levar para fora de lá. Algum dia.
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